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quarta-feira, 2 de março de 2022

a missão dos praticantes do Budismo Nichiren

 

soka gakkai

A opressão e a discriminação por causa de diferenças étnicas, ideológicas e religiosas e, ainda, o coração do ser humano que aceita e tolera essa situação – aí se encontra a natureza demoníaca latente nas profundezas da vida. Lutar contra essa natureza demoníaca é a missão dos praticantes do Budismo Nichiren.

O primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, morreu na prisão por suas crenças combatendo a opressão do governo militarista que, durante a Segunda Guerra Mundial, implantou a censura ideológica para fins bélicos. O segundo presidente da organização, Josei Toda, que foi preso junto com Makiguchi, reagiu após o término da guerra, defendendo o ideal de cidadania global. Essa ação de mestre e discípulo era uma luta contra todos os tipos de intolerância que separam as pessoas. O kosen-rufu é um processo de construção e expansão dos laços de solidariedade em favor dos direitos humanos.


Portanto, não há duas terras – pura e impura

 

soka gakkai

Nichiren Daishonin afirma: “Portanto, não há duas terras – pura e impura. A diferença reside apenas no bem e no mal da própria mente” (CEND, v. I, p. 4). É uma declaração de que essencialmente não há diferença entre uma terra e outra. Um local pode ser transformado no melhor ambiente possível a partir do coração e da determinação das pessoas que lá residem. Em outras palavras, o ambiente social próspero e pacífico só pode ser construído com a transformação da vida do próprio ser humano, que é o protagonista de tudo.

Daishonin dedicou a vida toda à implementação do “estabelecer o ensinamento correto para a pacificação da terra”. “Estabelecer o ensinamento” indica o ato de estabelecer os princípios filosóficos do budismo, de compaixão e de respeito à dignidade da vida no coração das pessoas, pela ampla propagação (kosen-rufu) da Lei Mística. E “pacificação da terra” refere-se à realização da paz perene e da prosperidade social como resultado do “estabelecer o ensinamento correto”.

É por essa razão que a nossa missão religiosa como budistas chamada kosen-rufu ou “estabelecer o ensinamento correto” está necessariamente ligada a ações concretas pela nossa missão social denominada “pacificação da terra”.

Sem “estabelecer o ensinamento correto” não há a verdadeira “pacificação da terra”. E sem “pacificação da terra” não há resultado final dos esforços do “estabelecer o ensinamento correto”.

Repletos de orgulho e firmemente ancorados no grande solo da realidade, nós, membros da Soka Gakkai, prosseguimos no desenvolvimento gradativo do “estabelecer o ensinamento correto para a pacificação da terra” promovendo ondas de diálogo com uma pessoa após outra visando a paz. Aí se encontra o caminho da verdadeira vitória do povo.


domingo, 20 de fevereiro de 2022

Coroar a vida com incontáveis vitórias

 

daisaku ikeda

Neste momento, estou novamente relembrando a mística relação cármica de mestre e discípulo Soka.

Ao enfrentar a grande perseguição do exílio em Sado, o buda Nichiren Daishonin assinalou seu primeiro passo nas terras de Shin’etsu no ano de 1271.

Exatos seiscentos anos depois, em 1871, o fundador da Soka Gakkai, mártir e grandioso mestre Tsunesaburo Makiguchi, nasceu em Shin’etsu, onde está gravado o espírito de Daishonin.

Makiguchi sensei amava sua terra natal e se dedicou em prol dos amigos e sucessores desse local.

Após a fundação da Soka Gakkai, dirigiu-se em primeiro lugar à sua terra natal, em Arahama, cidade de Kashiwazaki, província de Niigata, na companhia do seu amado discípulo, Josei Toda, um jovem de 30 anos, e realizou shakubuku nas pessoas conhecidas.

Na época em que se intensificavam os passos do regime militar, era uma viagem para plantar as sementes da Lei Mística, de paz e felicidade, no grande solo da amada terra natal.

Além disso, relembrando o fato de Daishonin ter escrito A Profecia do Buda, entre outras cartas, e declarado o “retorno do budismo para o oeste” e o “kosen-rufu do Jambudvipa [o mundo inteiro]” nas terras de Shin’etsu, aquela viagem salientava o extraordinário avanço do kosen-rufu mundial no futuro por intermédio da Soka Gakkai.

Mais tarde, no último verão que passou em Karuizawa, província de Nagano, Toda sensei me contou detalhadamente as recordações daquela viagem de mestre e discípulo. Foi nessa ocasião que jurei escrever o romance Revolução Humana.

Reitero meus sinceros parabéns pela realização da reunião de líderes em Shin’etsu, onde está gravada a história de juramento seigan de mestre e discípulo! Estou feliz por terem recebido a data de hoje, promovendo vigorosamente a expansão de valorosos seres humanos, o shakubuku e a propagação dos ensinamentos em todos os blocos e comunidades de Niigata e de Nagano.

Muitíssimo obrigado aos membros dos Estados Unidos, da América do Sul, da Europa, de Taiwan e da Coreia do Sul que realizaram um maravilhoso intercâmbio da amizade com os companheiros de Shin’etsu!

Quão felizes devem estar Makiguchi sensei e Toda sensei. Vamos juntos louvar mutuamente o grandioso esforço, repleto de coragem, da família Soka do Japão e do mundo com enorme salva de palmas!

Transformar o “domínio do meio ambiente”

O buda Nichiren Daishonin passou cerca de três anos após ter “abandonado o transitório e revelado o verdadeiro” aqui em Shin’etsu. Esse fato é de imensurável significado.

Nos escritos, Daishonin descreve o rigoroso frio que enfrentava: “A neve se empilhava dentro da cabana e nunca derretia” (CEND, v. II, p. 28) e “As chances de eu sobreviver mais este ano, ou mesmo este mês, são de uma em dez mil” (CEND, v. I, p. 421). A cada dia, Daishonin suportou a mais terrível e extrema opressão. Foi nesse meio que, com toda compostura, ele convocou os novos bodisatvas da terra, um após outro, tais como Abutsu-bo e a monja leiga Sennichi, indicando-lhes que homens e mulheres que recitam daimoku são, exatamente na forma que se apresentam, a suprema vida da “torre de tesouro”.

Cultivando os nobres e anônimos pais e mães, e pessoas comuns recém-iniciadas na fé, Daishonin formou os laços com o budismo na localidade. Fez das pessoas influentes e com experiência de vida, e até mesmo os adversários, suas aliadas, transformando enormemente o “domínio do meio ambiente” da Ilha de Sado.

Ao mesmo tempo que treinava seus discípulos sucessores, Daishonin orava pela segurança e tranquilidade de seus seguidores que estavam imersos na situação caótica de Kamakura, conforme afirmou: “Oro com forte convicção, capaz de produzir fogo com lenha encharcada ou obter água do chão ressequido” (CEND, v. I, p. 464). E, ainda, registrou a doutrina para o futuro de dez mil anos em escritos como Abertura dos Olhos e O Objeto de Devoção para Observar a Mente.

Fé tenaz e indomável

Observando profundamente o comportamento de ímpeto do leão demonstrado pelo buda Nichiren Daishonin, gostaria que gravássemos no coração a seguinte passagem sagrada escrita em Sado: “De todas as pessoas que desde o começo do kalpa atual foram perseguidas por seus pais ou soberanos e exiladas em ilhas distantes, não houve ninguém que tenha sentido nossa incontida alegria. Por isso, onde quer que habitemos e pratiquemos o veículo único [Sutra do Lótus], esse lugar será a Capital da Luz Eternamente Tranquila” (CEND, v. I, p. 330).

Como discípulos direto de Daishonin, independentemente de quaisquer adversidades ou efeitos do mau carma, enfrentem tudo alegre e corajosamente com o espírito “Que venham!”, orem incansavelmente a Lei Mística, vençam e superem tudo resolutamente no local da missão. Essa é a nossa relação de mestre e discípulo Soka.

A jornada de mestre e discípulo da vida e do kosen-rufu é uma eterna batalha contra as provações. É por isso que desejamos fazer resplandecer a “Capital da Luz Eternamente Tranquila” na terra do nosso juramento seigan, expandindo a nova rede dos emergidos da terra, com o bailar da revolução humana por meio da fé tenaz e indomável.

Hoje, enquanto o kosen-rufu avança simultaneamente em todo o mundo, vamos edificar a terra ideal da expansão de “valores humanos” e do desenvolvimento de jovens em seus respectivos locais e promover a construção da cadeia de renascimento da comunidade. E, assim, vamos iluminar a sociedade planetária com o brilho da amizade, da confiança e da paz!

“Flores humanas”

 

daisaku ikeda

“Flores humanas” são citadas no capítulo “Parábola das Ervas Medicinais” (5º) do Sutra do Lótus. Nesse capítulo, os diversos seres vivos, cada qual com sua qualidade e capacidade, e os ensinamentos do Buda são comparados, respectivamente, a diversificadas plantas e à chuva que cai para nutri-las de forma imparcial. Essa analogia elucida o florescimento da natureza de buda, igualmente, em todos os seres vivos.

Conforme exemplificado no Sutra do Lótus, desde a sua origem, o budismo lutou contra todas as formas de discriminação. Rejeitou a distinção devido a castas ou classes sociais, à raça, à etnia, à nacionalidade, à religião, à profissão ou à origem das pessoas. Por essa razão, o budismo sofreu numerosas perseguições por instituições e autoridades.

Nichiren Daishonin afirma que “...nasceu numa família chandala” (CEND, v. I, p. 210), identificando-se como alguém de classe marginalizada, alvo de discriminação. A partir de uma posição social inferior, ele lutou para propagar a filosofia budista de absoluta igualdade entre as pessoas.

 a Soka Gakkai, refletindo a história do budismo, de luta pelos direitos humanos, promove o movimento pela paz, cultura e educação com base na filosofia budista aberta para as pessoas.  da perspectiva de longo prazo, estava claro que a causa para o desenvolvimento da nação se encontrava na educação, pois o aumento de indivíduos conscientes e com intelecto faz com que maior número de pessoas seja capaz de enxergar a realidade da sociedade e distinguir o certo do errado e o bem do mal.

Um ponto de vista universal

 

daisaku ikeda

Quando as pessoas se baseiam no ponto de vista universal chamado ser humano, podem caminhar juntas em harmonia

Daisaku Ikeda

sábado, 19 de fevereiro de 2022

a força motriz da felicidade

 

daisaku ikeda

 “A Lei Mística é a força motriz da felicidade capaz de beneficiar o país e fazê-lo prosperar. As pessoas de fé são possuidoras de convicção e de felicidade por toda a vida e toda a eternidade”.


a força motriz para unir as pessoas do mundo

 

daisaku ikeda

expandir concretamente o movimento pelo kosen-rufu transmitindo amplamente o pensamento humanístico e pacifista do budismo ao mundo, criando profundas raízes em meio ao povo, é o ponto essencial para construir o inabalável alicerce da paz perene. O poder do povo e as forças de base formam a sólida opinião pública contra a guerra e contra as armas nucleares, ao mesmo tempo em que se tornam a força motriz para unir as pessoas do mundo.

unir a humanidade em prol da paz

 

daisaku ikeda

Se a ideologia do absoluto respeito à dignidade da vida for estabelecida no coração das pessoas de todo o mundo, pode-se unir a humanidade em prol da paz. No nível mais fundamental, a construção da paz está em estabelecer firmemente essa ideologia, e expandir incessantemente o círculo de pessoas que a abraçam e a apoiam.

uma ideologia de ‘cidadania global’

 

daisaku ikeda

O que Nichiren Daishonin almejava era a felicidade das pessoas que lutavam contra os sofrimentos. Seu objetivo não era só o kosen-rufu de um único país, o Japão, mas a ampla propagação para todo o Jambudvipa [o mundo inteiro], isto é, o kosen-rufu mundial ou a paz e a felicidade de toda a humanidade. Quando nos voltamos a esse espírito de Daishonin, nasce em nós próprios a ideologia de coexistência harmoniosa de todas as pessoas, e da busca do bem comum da humanidade.

Em fevereiro de 1952, época em que se intensificavam as tensões entre Oriente e Ocidente num mundo dividido entre os Estados Unidos e a União Soviética, Josei Toda clamou por uma ideologia de ‘cidadania global’. Isso também expressava um pensamento budista.

Os membros da Soka Gakkai, que praticam o Budismo Nichiren, possuem uma filosofia de vida que considera todas as pessoas valorosas, iguais e possuidoras do direito de ser feliz. Quando veem o sofrimento de alguém, manifestam a empatia e o desejo de que a pessoa se torne feliz, e encorajam-na com espírito compassivo. Expandir a simpatia para essa forma de pensar e de viver é o sólido movimento de base em prol da paz capaz de unir as pessoas do mundo.


A origem do movimento pela paz da Soka Gakkai

 

soka gakkai

A origem do movimento pela paz da Soka Gakkai encontra-se na luta do seu presidente fundador, Tsunesaburo Makiguchi, contra a opressão do governo militarista japonês que adotou o xintoísmo do Estado como seu pilar espiritual para unir a população à guerra. Makiguchi se recusou veementemente a aceitar o talismã xintoísta, que era uma coação ordenada pelas autoridades militaristas visando o controle ideológico das pessoas. E assim em julho de 1943 foi preso e encarcerado junto com o seu discípulo Josei Toda.

Recusar-se publicamente a aceitar o talismã xintoísta no período de guerra sob controle de pensamento representava um confronto contra as autoridades do país em busca da liberdade do pensamento e de crença. Era literalmente uma luta de vida ou morte pelos direitos humanos. E, de fato, Tsunesaburo Makiguchi encerrou a vida na prisão em meio às geadas de outono no dia 18 de novembro de 1944, ano seguinte à sua detenção.

Todas as pessoas possuem o direito fundamental à liberdade de pensamento e de crença. Proteger esse direito representa a base para a paz.

A visão budista que enxerga o estado de buda em todas as pessoas é a base fundamental dos direitos humanos. Makiguchi, que era praticante desse budismo, não teve outra saída a não ser lutar contra o governo militarista que fazia das pessoas ferramentas para atender seu intento. Seu discípulo, Josei Toda, anunciou em 8 de setembro de 1957 a Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, considerando as armas nucleares como o mal absoluto que arrebata do ser humano o direito à vida. Foi também fruto de um inevitável posicionamento como praticante do budismo.

Na verdade, o Budismo Nichiren, a base do movimento da Soka Gakkai, é um ensinamento que atribui o supremo valor à vida humana, sem nunca considerar a nação ou o estado como absolutos. Em seus escritos, Nichiren Daishonin se refere à autoridade militar máxima do governo de sua época como “soberano deste pequeno país insular” (CEND, v. II, p. 23).

E também declara: “Pode parecer que, por ter nascido nos domínios do governante, eu deva segui-lo em minhas ações. Porém, jamais o seguirei em meu coração” (CEND, v.I, p. 605). Essa frase também está incluída na publicação da Unesco, intitulada “Direitos Originais do Homem”.¹

Trata-se de uma mensagem de Daishonin de que as pessoas não são escravas do Estado ou da estrutura social. Nenhuma autoridade é capaz de acorrentar o espírito humano. É verdadeiramente uma declaração de direitos humanos que afirma o valor universal da vida humana, transcendendo os poderes do Estado.

Obviamente, as nações e os governos possuem papel indispensável, e é importante que as pessoas contribuam da melhor forma possível para o seu país, pois suas condições influenciam fortemente a felicidade ou a infelicidade do povo. O ponto essencial é que o povo não existe em prol da nação ou de uma pequena parcela de líderes; a nação é que existe em prol do povo.


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Máximo Potencial Humano

 

soka gakkai

As crianças — pequenos adultos


É uma equação simples: daqui a 20, 30 e 50 anos, quem estará liderando o mundo serão as crianças de hoje. É fundamental para elas que o lar seja um local saudável de educação construída por meio do diálogo.


O presidente Ikeda orienta: “Jamais menosprezem uma criança. Tratem as crianças como pequenos adultos, como bons amigos. Respeitem a personalidade da criança, e ao conversar com ela, se dirigir como a um verdadeiro amigo” (A Família Criativa, p. 56).


Essa é uma proposta ousada e exige mudar completamente a forma de lidar com os pequenos — de uma relação de superioridade adulta para o respeito absoluto e a confiança. Na criança não floresceu totalmente ainda a capacidade de se comunicar, mas já possui tudo o que é necessário para viver. É um adulto que apenas não avançou na idade.


Quando os mais velhos tratam as crianças dessa forma e se esforçam sinceramente para dialogar com elas com respeito, tudo começa a mudar. Ao descobrir quanto cada pessoa é preciosa, “fará evidenciar o potencial ilimitado inerente na garotinha, que pode estar tendo dificuldades com matemática, ou no garotinho a quem consideram um desordeiro” (Ibidem, p. 57). Numa família criativa, impera o diálogo e cada um se esforça para despertar o melhor em todos.


Educar é se devotar ao desenvolvimento de cada pessoa


A educação não pode sufocar os jovens nem se restringir a transmitir conhecimento. Educar é trazer à tona o potencial máximo de cada ser humano.


“Acredito que a maior parte da tarefa de ‘cultivar o humanismo’ deveria ser executada em casa, local em que ocorre o desenvolvimento mais significativo do indivíduo”, afirma o presidente Ikeda ao discorrer sobre a influência do lar na educação.


Quando o lar é saudável, as crianças crescem criativas, sábias e livres. Quando as relações familiares são embasadas no diálogo sincero, os jovens são nutridos com confiança, valores humanos e capacidade de tomar boas decisões. Ao contrário, a superproteção e a desarmonia familiar produzem muitas vezes indivíduos “com mente estreita, frios e covardes” (Ibidem, p. 59).


O lar é o local da verdadeira educação humana que deve começar pela coragem dos adultos em romper as tendências egoístas e tornar-se o sol do encorajamento, da gentileza e da luta contínua em busca da felicidade. Num lar criativo, dialogar é fonte de prazer.


Jamais perder a identidade


Família criativa é aquela na qual cada pessoa é cuidada e sua indivualidade, respeitada. O presidente Ikeda condena o abandono da identidade pessoal em nome da convivência familiar.


Em algumas famílias, por exemplo, a esposa descuida de si mesma, tentando forçosamente construir uma família harmoniosa à custa da própria individualidade.


O Mestre expõe que certas pessoas fazem observações cínicas que definem as mulheres como “empregadas permanentes, com direito a três refeições diárias e permissão para tirar um cochilo durante o dia” (A Família Criativa, p. 32).


Ele clama: “Jamais percam sua identidade”.


Cada pessoa precisa ter seus sonhos, desenvolver uma vida com identidade bem-definida estando disposta a batalhar pelo que gosta e deseja. Isso naturalmente vai desencadear uma batalha e uma tensão espiritual. A vitória nessa batalha enriquece o caráter: “Essa condição é o que origina a atratividade em um ser humano. O senso de propósito é o que possibilita às mulheres conservar o seu magnetismo” (Ibidem, p. 32).


Uma pessoa sem brilho, sem magnetismo, causa estragos. A aparente submissão cobra alto preço com o passar do tempo.


Em vez de resignação, é preciso emoção, luta e compaixão. Busque o autoaprimoramento em paralelo com o amor intenso pela família: essas duas ações não são contraditórias, precisam caminhar juntas — são, na verdade, a fonte da criatividade e do cultivo de uma lar saudável e no qual todos sentem vontade de sempre retornar.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O Universo é imensurável e magnificente

 

soka gakkai

O Universo é imensurável e magnificente. Se fôssemos capazes de expandir o nosso coração para o cosmos, veríamos que o nosso mundo, onde as pessoas entram em conflito por causa de dinheiro, fama, egoísmo e inveja, é pequeno e insignificante. Da mesma forma, veríamos quão tolos são os homens ao se odiarem e se matarem em guerras. Por isso, recomendo que todas as pessoas estudem astronomia.

Concordo plenamente com sua recomendação. A astronomia faz com que os homens adotem a humildade em seu comportamento.

(...)

 Creio que o cultivo de uma visão universal tornar-se-á cada vez mais precioso na arte da educação. A propósito, o que motivou o seu interesse pela observação do céu?

Foi, sem dúvida, a beleza do céu estrelado. O céu era para mim como um poderoso ímã. Os corpos celestes me atraíam muito por serem belos e luminosos, e eu ficava fascinado com a imensidão do Universo. Tudo tinha um aspecto de contemplação, admiração e êxtase. Tornei-me um amigo das estrelas. Quantas vezes, em noite estrelada, não parei para olhar o céu e fiquei me perguntei romanticamente: “Que mistérios haverá por trás daqueles pontinhos brilhantes? Que segredos haverá por trás daquela lua cheia plantada no escuro impenetrável?"

 Creio que entendo o seu sentimento. A beleza das estrelas que cintilam no espaço celestial convida os homens a uma viagem de sonhos e surpresas. Atraídos provavelmente por esse romantismo, os homens esboçaram, desde os tempos remotos, o traçado das constelações interligando as estrelas, deram asas à imaginação e criaram lendas e mitos que são contados até os dias de hoje.

O cintilar das estrelas dá a sensação de falar algo para quem as observa. Palavras de conforto para os tristes, de parabéns para os eufóricos, de coragem para os desiludidos, de diligência para os preguiçosos e de serenidade para os revoltados. Quando se dialoga com as estrelas, o homem é capaz de retornar ao seu “eu” original. Na vida diária, cheia de dificuldades e preocupações, ao olhar sem querer para o céu estrelado, as pessoas podem sentir em seu corpo o pulsar da grande energia do Universo e estimular assim a esperança no amanhã. Infelizmente, hoje em dia, tornou-se difícil ver as estrelas no céu sobre as grandes cidades. Espero que o nosso diálogo sirva aos leitores como um meio para conversar com o romântico Universo.

Compartilho inteiramente com seu sentimento de que “a beleza das estrelas que cintilam no espaço celestial convida os homens a uma viagem de sonhos e surpresas”. Bela e poética essa colocação. Que o brilho das estrelas possa trazer os mais belos sonhos e as mais gratas e lindas surpresas para a humanidade. Deveríamos sempre permitir que nosso coração viaje pelo Universo em uma sublime fusão entre nós e o cosmos. É apenas uma simples colocação, mas tenho a sensação de que os astros que circundam o Universo são nossos amigos e protetores.

 Que maravilhosas palavras – as estrelas são nossos amigos, são nossos protetores! O budismo expõe que o Sol, a Lua e as estrelas protegem as pessoas durante o dia e a noite, desde o amanhecer até o anoitecer. O budismo ensina o correto caminhar pela jornada da vida com amplo coração e forte coragem, tendo as estrelas como amigo e protetor.

(...)

 O Universo é, de fato, permeado por ininterrupto e vivo movimento rítmico. As estrelas, os astros, o ser humano e todos os fenômenos estão em constante mutação. O budismo, a cristalização da sabedoria oriental, expõe que a transformação básica do Universo ocorre de acordo com o princípio de “formação, continuação, declínio e desintegração”. Essa é a dinâmica visão budista sobre o panorama da ininterrupta e viva evolução de todos os fenômenos do Universo mantendo a inter-relação e a interdependência. O Universo se move ininterruptamente de acordo com seu místico ritmo, ditando que “o instante é a própria eternidade” e que “o eu é o próprio cosmos”.


um novo e amplo conceito de uma religião universal

 

soka gakkai

A prática religiosa, de modo geral, é considerada uma atividade universal para ligar o ser humano ao infinito, ao absoluto e ao divino. Embora isso seja correto em certo sentido, muitas religiões postulam a separação entre o secular e o divino, entre os seres humanos e a divindade ou o Buda e procuram reduzir essa lacuna.

No entanto, Nichiren Daishonin considerou esses ensinamentos incompletos e citou como exemplo os ensinamentos provisórios ou anteriores ao Sutra do Lótus expostos por Shakyamuni. Essas doutrinas não estabelecem os princípios ou a prática que possibilita as pessoas atingirem o estado de buda nesta existência. Em vez disso, expõem que as pessoas devem realizar uma prática austera por intermináveis kalpa para atingirem a iluminação.

(...)

A Lei Mística é a Lei fundamental do Universo. Nesse sentido, possui uma universalidade que transcende nosso próprio “eu”. No entanto, conforme revela Nichiren Daishonin ao explicar a “verdade mística inerente nos seres vivos”, a Lei Mística também existe inerentemente em nossa vida porque é uma Lei universal que abrange e permeia tudo no Universo.

(...)

De forma geral, as religiões expõem uma entidade eterna e infinita que transcende o ser humano e a transitorieda­de do mundo empregando termos como “deus” ou “lei”. Essa entidade eterna e infinita pode ser vista de maneiras distintas pelas religiões: pode inspirar medo reverencial, adora­ção, um grande vazio associado ao nada ou uma torrente de amor universal.

Nichiren Daishonin percebeu que o poder da Lei Mística, que abarca e sustenta todas as coisas no Universo, existe dentro do ser humano, e revelou o meio pelo qual cada pessoa pode manifestar realmente essa Lei na vida.

Em meu segundo discurso proferido na Universidade de Harvard, em setembro de 1993, destaquei três pontos pelos quais o budismo Mahayana poderia contribuir para a civilização moderna: 

(1) promover a construção da paz;

 (2) pavimentar o caminho para a restauração e o rejuvenescimento da humanidade; 

e (3) oferecer uma base filosófica para a coexistência simbiótica entre todas as coisas. 

Sobre o segundo ponto, frisei o enfoque dado pelo Budismo Nichiren, que ensina a não depender unilateralmente do poder do indivíduo nem do poder externo. Essa perspectiva conquistou a adesão de muitos acadêmicos. De acordo com o Budismo Nichiren, as pessoas somente podem ativar plenamente seu poder interior quando, mediante o recurso da oração, fundem-se com o poder externo da verdade eterna e imutável que transcende o “eu” limitado e finito. Ao mesmo tempo, na realidade, esse poder externo e universal nos é intrínseco. Nichiren Daishonin afirma:

As pessoas são, com certeza, providas de poder próprio e, no entanto, não são providas de poder próprio. (...) As pessoas certamente têm o poder dos outros e, no entanto, não têm o poder dos outros.2

Em minha opinião, o significado dessa frase é que podemos manifestar o poder transcendental que possuímos dentro de nós quando não dependemos exclusivamente de um poder externo nem de nosso próprio poder. O que nos permite manifestar este poder inato é a recitação do Nam-myoho-renge-kyo.

Dessa forma, o Budismo Nichiren apresenta um novo e amplo conceito de uma religião universal em prol da felicidade de toda a humanidade – uma visão que transcende o enfoque dos ensinamentos que separam o poder externo do poder interno e dão mais ênfase a um do que ao outro.



quinta-feira, 14 de outubro de 2021

a verdadeira dignidade humana em nossa vida

 

soka gakkai

Numa passagem muito conhecida, Nichiren Daishonin expressa:

O coração dos ensinamentos que o Buda expôs ao longo de sua existência é o Sutra do Lótus, e o coração da prática deste sutra se encontra no capítulo “Jamais Desprezar”. Qual é o significado do profundo respeito que o bodisatva Jamais Desprezar sentia por todas as pessoas? O propósito do advento do buda Shakyamuni, senhor dos ensinamentos, neste mundo reside em seu comportamento como ser humano. (...) Os sábios podem ser chamados de humanos, mas os tolos não são mais que animais. (CEND, v. II, p. 113)

Daishonin diz que aqueles que são sábios no comportamento e no modo de vida são verdadeiramente humanos. Apenas nascer na forma humana não o torna um ser humano. São necessários sabedoria e esforços conscientes para se tornar um autêntico ser humano. Atos tolos e impensados que desonram e desrespeitam os outros fazem com que não sejamos mais que animais.

O budismo elucida a essência da dignidade humana na dimensão mais fundamental da vida. Não constitui apenas um sistema de pensamentos meramente contemplativos mas uma filosofia prática para nossa vida no mundo real. O budismo nos habilita a demonstrar, de modo concreto, a verdadeira dignidade humana em nossa vida, a reconhecê-la nos outros e torná-la uma realidade no cotidiano. Também ensina a prática suprema da afirmação da dignidade humana, tanto a nossa como a dos demais.

A Soka Gakkai é um ambiente no qual os membros se empenham para viver de acordo com o espírito fundamental do budismo e demonstrar total respeito uns pelos outros. É uma organização consagrada à promoção de um modo de vida pautado pelo respeito à dignidade de todas as pessoas. É um mundo devotado à formação de indivíduos de autêntico humanismo com base em seus esforços.

A sociedade possui várias esferas — as dedicadas a criar coisas, as que produzem valor econômico ou artístico e até as que cuidam de preparativos para guerras. Dentre todas, a Soka Gakkai é um reino precioso que, assentado no ensinamento do Budismo Nichiren, devota-se à felicidade, ao desenvolvimento e ao crescimento das pessoas que compõem a base de toda atividade social. A missão de propagar o Budismo Nichiren é profunda, sublime e encontra-se num âmbito completamente diferente dos demais campos da atividade humana.

Nosso propósito é ter uma existência plena e gratificante, notabilizada pelo respeito à nobreza e à dignidade da vida humana. Ao mesmo tempo, nós nos opomos resolutamente a qualquer ato que desonre e viole a dignidade da vida.


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

uma missão no processo de construção da paz

 

soka gakkai

A observação do Universo faz com que o homem reveja seu modo de vida e sua filosofia. Podemos dizer que a astronomia tem também uma missão no processo de construção da paz. Se observarmos, por exemplo, a Terra lá do espaço, não veremos nenhuma linha chamada fronteira. Ela foi criada arbitrariamente pelos homens por interesse de domínio, disputando-a tolamente até com derramamento de sangue. (...)

Como é medíocre e curta a ideia de disputar territórios, tirar vidas em troca disso. Que absurdo! Pobres e estúpidos os homens que provocam essas atrocidades.

 A guerra é extremamente cruel e trágica. E a vítima é sempre o povo. Na minha família, meus quatro irmãos foram convocados para a frente de batalha na Segunda Guerra Mundial e o mais velho morreu em combate.

Não esqueço, ainda hoje, a tristeza que golpeou o coração de minha mãe ao receber a notícia. Tal como ela, milhares de outras famílias tiveram suas vidas e seus sonhos destruídos pela guerra. Abomino veementemente a guerra. Eis a razão para eu batalhar pela paz. Este meu sentimento está enraizado numa experiência real.

Considero os méritos da sua luta na construção da paz como os mais louváveis e extremamente importantes para o mundo. Seu espírito de paz é indispensável para a humanidade.

Logo depois do nosso encontro em Tóquio, viajei para Hiroshima e conheci o Museu da Bomba Atômica. Meu coração encheu-se de incontida tristeza e indignação ao ver a perda de milhares de vidas num piscar de olhos. Apesar de existir uma história real de atrocidade, por que os líderes do mundo não cessam imediatamente os conflitos armados e não concentram a inteligência para criar a paz? Esse questionamento surgiu como um brado em meu coração. Ninguém pode matar ninguém, e ninguém deve ser morto. Esse é o meu pensamento que compartilho com o senhor.

Somos parceiros na luta pela paz. Com base em minha crença no pacifismo absoluto e no respeito à dignidade da vida, tenho empreendido esforços na criação de uma correnteza para a coexistência harmoniosa em nosso mundo por meio do diálogo que transcende ideologias e nacionalidades.

Tenho plena convicção de que a sábia visão da astronomia pode oferecer os meios concretos para superar as fronteiras de etnias e Estados.

Se olharem o mundo sob uma visão universal, entenderão que todos são habitantes de uma mesma Terra e compartilham um destino comum. Perceberão que as pessoas, sem exceção, são existências insubstituíveis. Esse tipo de visão da vida e do Universo nos proporciona um diálogo que sobrepuja diferenças de etnias e interesses.

O astronauta russo Aleksander Serebrov disse em nosso diálogo:

O que mais achei estranho tripulando a nave espacial foi o fato de os homens ficarem se detestando num pequeno território da pequena Terra apesar de estarem na era de voar pelo Universo.

Seria maravilhoso se todas as pessoas contemplassem a beleza do céu estrelado, que brilha igualmente para toda a humanidade, e expandissem seus corações para o tamanho do Universo.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

a humildade em respeitar e admirar o que é louvável em todas as pessoas.

 

soka gakkai

A vontade de aprender com as pessoas e a prontidão em realizar uma autorreflexão são qualidades que fazem os seres humanos se desenvolverem e se tornarem mais felizes. O que acontece quando perdemos ou negligenciamos essas habilidades? As espantosas consequências disso são o que o budismo descreve como o mundo da ira.

A palavra “ira” possivelmente nos faz pensar numa pessoa perdendo a calma ou furiosa. Essa é uma reação natural e algumas vezes necessária diante das situações que defrontamos. Tal ira pode agir positivamente quando direcionada contra a injustiça ou a irresponsabilidade, por exemplo.

Há uma diferença entre esse tipo de ira e o ego obcecado do mundo da ira descrito na teoria budista. Ira, nesse caso, refere-se a um dos “dez mundos” ou “estados de vida” que, de acordo com o conceito budista dos dez estados de vida, são inerentes a todos.

Nós passamos por esses estados em diferentes momentos e de diversas maneiras, dependendo das respostas que damos às circunstâncias em que vivemos e dos pontos fortes ou fracos de nossos esforços internamente motivados em busca do nosso aprimoramento.

Os “dez estados de vida” são inferno, fome, animalidade, ira, tranquilidade ou humanidade, alegria, erudição, autorrealização, bodisatva e buda (CEND, v. I, p. 918).

A principal característica do mundo da ira é a inveja, o tipo de pessoa que não tolera a ideia de existir alguém melhor que ele. É uma necessidade ardente de ser superior aos outros, uma crença de que se é “bom” ou “o tal”. 

Nichiren Daishonin, fundador do budismo no século 13, o qual é praticado pelos membros da SGI, caracteriza a ira como “perversidade”. Isso se deve à grande desunião entre os mundos internos e externos de uma pessoa no estado de ira. 

A intensa competitividade dessa pessoa é mascarada por uma demonstração de virtudes e por um comportamento adulador intencionado a extrair o reconhecimento por parte de outros, tão essencial para seu senso de superioridade. 

A agressividade das pessoas nesse estado dá uma falsa ideia de sua insegurança. Arrogância, desprezo pelos outros, um traço de temperamento altamente crítico, influente e conflituoso sempre com desejo competitivo são aspectos do mundo da ira assim que este se manifesta em nossa vida.

As ações da SGI visam tornar possível a transformação na sociedade com a transformação do coração de cada indivíduo e estão baseadas na compreensão das peculiaridades do coração humano e na profunda ligação entre o indivíduo, a sociedade e o universo.

Enquanto cada pessoa se empenha em ser feliz, os esforços equivocados daquelas no mundo da ira só as afundam na miséria e no senso de isolamento. Paradoxalmente, entretanto, o senso de autoconsciência e de auto importância, característico desse estado de vida, é também a porta de entrada para a empatia com os demais. O senso aguçado do ego de um indivíduo pode ser a base para a compreensão de como é importante e preciosa a vida de cada pessoa e das dificuldades em comum para viver feliz neste mundo.

A chave para a transformação do mundo da ira se encontra no autodomínio em canalizar a energia, que anteriormente era voltada para vencer em detrimento dos outros, em energia para vencer a si mesmo. Isso começa com a humildade em respeitar e admirar o que é louvável em todas as pessoas.



protagonistas de uma história da vitória interior

 

soka gakkai

Mudar a nós mesmos pode ser um trabalho árduo. Qualquer um que tenha persistido em uma determinação de Ano-Novo sabe que a decisão de mudar até um simples aspecto do seu comportamento para melhor implica geralmente um esforço e muito empenho. Nossa vida parece possuir uma resistência inata à mudança que seja pelo menos tão forte quanto nosso desejo de melhorar a nós próprios.

No budismo, essa resistência é caracterizada como “obstáculos” e “funções malignas”, que são uma parte natural do funcionamento dinâmico da nossa vida.

A mais profunda transformação positiva que os seres humanos podem realizar é condensada pela ideia de “alcançar a iluminação”. Isso poderia ser descrito como processo de expandir a capacidade de uma pessoa para que ela tenha a benevolência e a preocupação pela felicidade de todas as pessoas como a parte mais importante da vida — um desafio em termos de ação, bem como a intenção e a consciência. As dificuldades que uma pessoa enfrenta ao desafiar suas circunstâncias são descritas no Sutra do Nirvana como “os três obstáculos e as quatro maldades”. A descrição desses obstáculos e maldades inclui fatores como o carma e os obstáculos decorrentes da avareza, ira e estupidez. Mais amplamente, são os vários tipos de dificuldades que acompanham todo o esforço para realizar a transformação.

Em seus escritos, Nichiren Daishonin cita o mestre budista chinês Tiantai, que desenvolveu um sistema de meditação, descrito em sua obra Grande Concentração e Discernimento, para permitir que os praticantes percebessem a verdadeira essência da vida e alcançassem o estado de buda. Tiantai escreveu: “Com o progresso da prática e aumento de conhecimento, os três obstáculos e as quatro maldades surgem de forma confusa, disputando um com o outro... um não deve ser influenciado nem temido pelo outro”.

Para Tiantai, esses obstáculos e essas maldades eram impedimentos internos e distrações resultantes da mente dos praticantes conforme se avançava na prática budista. Para Nichiren Daishonin, cuja vida adulta foi uma sucessão contínua de perseguições e confrontos com as estruturas de repressão social do seu tempo, esses obstáculos se manifestaram concretamente na oposição real que ele e seus discípulos enfrentaram em virtude de suas crenças.

Se aparecem externa ou internamente, tais obstáculos advêm da mesma fonte, que no budismo é chamada “escuridão fundamental”. Esta é uma ignorância fundamental da verdadeira natureza iluminada da nossa vida, e é fonte de toda a ilusão e miséria na vida dos seres humanos. Ela pode se manifestar como falta de clareza, por meio de impulsos destrutivos em nós mesmos ou nos outros, ou como uma força traiçoeira para sentimentos como complacência, desânimo, tentação ou intimidação.

Daishonin, no entanto, tem uma opinião positiva sobre os obstáculos e as maldades, dizendo que, quando eles aparecem “o sábio se alegrará enquanto o tolo se acovardará” [WND, v. I, p. 637]. Isso ocorre exatamente pelo fato de confrontarmos e triunfarmos sobre todas as funções negativas. A coragem serve para enfrentarmos essas influências e não sermos derrotados por elas.

“Não há caminho fácil para a realização do bem”, explica o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, em sua Proposta de Paz 2010. “Não temos escolha a não ser nos firmar na realidade e assumir desafios difíceis nos empenhando em busca do nosso autoaprimoramento”. Nesse processo de superação de obstáculos e funções malignas, tornamo-nos protagonistas de uma história da vitória interior fortalecida nas profundezas da nossa vida. Esse é o objetivo da prática budista.



a grande e digna forma original de nossa vida

 

soka gakkai

O Sutra do Lótus, considerado no Budismo de Nichiren Daishonin como o ensinamento por meio do qual o Buda revela toda a verdade sobre a sua iluminação, é uma descrição bastante alegórica da interação entre o buda Shakyamuni e uma grande reunião de discípulos. De repente, em determinado e significativo momento, uma “torre de tesouro” magnífica emerge da terra. 

A imensidão de suas dimensões vai além da imaginação e a torre está adornada com sete tipos de tesouro. “Torre” aqui é uma tradução de stupa [estupa, em português], estrutura na forma de cúpula construída para abrigar as relíquias do Buda.

Enquanto a assembleia olha estarrecida, ouve-se uma voz de dentro da torre elogiando Shakyamuni e confirmando a verdade de seus ensinamentos. Shakyamuni abre a 
torre para revelar um buda que está sentado dentro dela chamado Muitos Tesouros que, conforme nos é ensinado, viveu e morreu no passado incalculavelmente distante.

Shakyamuni explica que essa torre de tesouro aparece em qualquer lugar no universo em que o Sutra do Lótus está sendo pregado. Ele entra na torre e se senta ao lado de Muitos Tesouros. A torre e toda a assembleia elevam-se no espaço onde na Cerimônia no Ar, existem outros acontecimentos. Tudo isso é a elucidação, com rico simbolismo, da insondável natureza de buda inerente à vida das pessoas.

No budismo, buda representa o ideal de desenvolvimento humano e a perfeição. Shakyamuni, com sua grande compaixão, sabedoria e coragem, personifica esse ideal se tornando modelo para seus discípulos. Contudo, após a sua morte, o budismo ficou envolvido em uma aura mística e o ideal do estado de buda passou a ser visto como um objetivo quase inatingível e distante da própria realidade e oposto à existência humana.

Os ensinamentos de Nichiren Daishonin (1222–1282), por outro lado, baseiam-se na premissa do Sutra do Lótus de que o mundo do estado de buda é uma parte intrínseca da vida das pessoas que conseguem manifestá-lo exatamente da forma como são. O surgimento da Torre de Tesouro pode ser encarado como uma explicação da real relação entre o ideal elevado do estado de buda e da vida cotidiana.

Nichiren Daishonin interpreta a Torre do Tesouro como simbolismo à realidade última, que ele identificou como Nam-myoho-renge-kyo. O buda Muitos Tesouros corresponde o mundo eternamente duradouro do estado de buda. Essa realidade sublime sempre existiu, mas só se manifesta sob determinadas condições. O buda Shakyamuni representa aqui um buda mortal ou o estado de buda manifesto e ativo neste mundo transitório real. O ato de Shakyamuni sentando-se ao lado de Muitos Tesouros representa o fato de esses dois aspectos do Buda — o eterno e o transitório — serem um só.

Em carta a um discípulo, Daishonin explica que a realidade última existe e está nas profundezas da vida de todas as pessoas. Ele assegura: “A Torre de Tesouro não existe fora dos homens e das mulheres que abraçam o Sutra do Lótus”.

Os atributos e as qualidades do Buda já estão na 
vida de cada indivíduo. O propósito do Sutra do Lótus, bem como a missão daqueles que o praticam, é ativar as qualidades do Buda existentes nas profundezas da vida e trazê-las para
o mundo. O Sutra do Lótus é o que conecta essas duas realidades. Daishonin revelou a recitação do daimoku como prática do Sutra do Lótus, como forma de possibilitar que a Torre de Tesouro surja de dentro da nossa vida. Como ferramenta para essa prática, ele inscreveu
um mandala, o Gohonzon, que representa, em caligrafia chinesa, a Cerimônia no Ar, e é uma representação da natureza de buda presente em tudo.

Nichiren Daishonin descreve as sete jóias que adornam
 a Torre de Tesouro como a representação das virtudes de “ouvir o ensinamento correto, acreditar nele, seguir os preceitos, dedicar-se à meditação, praticar assiduamente, renunciar aos apegos e refletir sobre si mesmo”. De maneira significativa, essas qualidades não são de uma figura de um buda venerável e sim daqueles que estão se esforçando para alcançar o estado de buda. É pelo empenho que as qualidades da natureza de buda inerentes à nossa vida se manifestam.

Enxergar a Torre de Tesouro é reconhecer a natureza de buda que existe em cada um de nós. É estar ciente da grande dignidade da vida, tanto a nossa vida como a dos outros, protegê-la. A fé́ na natureza de buda inerente é o que diferencia um buda de um mortal comum.

Como o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, afirma, “A ‘torre adornada com os sete tesouros’ é a grande e digna forma original de nossa vida”.



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

“Lutar é minha vida!”

 

daisaku ikeda

Há algo de muito especial no sorriso de Nelson Mandela. É um sorriso honesto e puro, cheio de bondade e serenidade, incorpora as convicções e a força do caráter de um homem que conduziu seu povo à liberdade. É um sorriso tão puro e genuíno quanto o ouro, e ele brilha como alguém que foi severamente forjado no crisol do sofrimento mais profundo, onde se refinam todas as impurezas.

Ele irradiava confiança quando o saudei em Tóquio, numa tarde de julho de 1995. Era o nosso segundo encontro, pouco após haver sido eleito presidente da África do Sul.


Mandela comentou: “As prisões da África do Sul pretendiam nos enfraquecer, de forma que jamais tivéssemos novamente força e coragem para perseguirmos nossos ideais.”


Os prisioneiros eram acordados antes do amanhecer para uma longa jornada de trabalho forçado. Durante treze anos, Mandela foi conduzido em correntes para uma mina de pedra calcária e forçado a extrair cal de um despenhadeiro íngreme sob um sol escaldante.

Mesmo sob essas condições terríveis, Mandela conseguiu estudar e incentivar os outros prisioneiros a partilharem seu conhecimento uns com os outros e debaterem suas ideias. Palestras eram realizadas em segredo e a prisão veio a ser conhecida como “Universidade Mandela”. Ele jamais diminuiu seus esforços para transformar as visões errôneas e criar aliados entre os que o rodeavam. Posteriormente, seu espírito indomável conquistou o respeito até mesmo dos guardas da prisão.


De longe, o tormento mais cruel que tinha de suportar era sua incapacidade de auxiliar seus familiares ou protegê-los das incessantes perseguições das autoridades. Foi na prisão que soube da morte de sua mãe. Foi na prisão que soube que seu filho havia morrido “acidentalmente” em circunstâncias muito suspeitas. Foi nessa mesma cela que soube das perseguições à sua esposa. E foi também no cárcere que soube que sua casa havia sido incendiada e que seus companheiros do movimento pelos direitos civis dos negros estavam sendo mortos um após o outro. Não havia nada a fazer a não ser resistir.


Em 1978, dezesseis anos depois de sua prisão, finalmente lhe foi concedido o direito de se encontrar com sua filha Zenani. Ela havia se casado com um príncipe da Suazilândia, conquistando assim o privilégio diplomático de um encontro pessoal, sem muros nem barreiras de vidro separando pai e filha.


Zenani levara sua filha recém-nascida junto com ela. Deixou o bebê com seu marido e correu para os braços de seu pai, sentindo uma descarga elétrica de emoção quando ela o abraçou.


O presidente Mandela segurou sua neta durante toda a visita. Ele escreveu: “Segurar um bebê recém-nascido, tão vulnerável e suave em minhas mãos ásperas, que por muito tempo seguravam apenas picaretas e pás, foi uma alegria indescritível. Não creio que nenhum homem tenha sentido maior felicidade por segurar um bebê do que eu senti naquele dia.”


Zenani pediu a seu pai que escolhesse um nome para o bebê. Ele a chamou de Zaziwe, que significa “esperança”. Quando olhou sua neta, escreveu posteriormente, pensou no futuro, quando ela já estaria crescida e o apartheid seria uma lembrança distante. Ele pensou na chegada de uma nova era, na geração de sua neta desfrutando o sol da liberdade, caminhando orgulhosa e destemidamente pelas ruas. Ele pensou em uma era em que seus país não fosse governado por brancos ou negros, mas que todas as pessoas pudessem viver juntas em harmonia e igualdade. Foi pensando em tudo isso que ele escolheu o nome Esperança para sua neta.


Quando o presidente Mandela e eu nos encontramos pela primeira vez, em 1990, sugeri a organização de uma série de programas para informar o público japonês sobre a realidade do apartheid e para promover a educação na África do Sul. O presidente Mandela aceitou minha proposta com grande alegria. Seu secretário, Ismail Meer, disse que essa oferta de intercâmbio cultural foi um reconhecimento bem-vindo dos africanos como seres humanos. Isso é o que lhes foi negado na África do Sul, onde eles eram simplesmente classificados como “negros”.


A tendência de rotular as pessoas não existe apenas na África do Sul. Atitudes preconceituosas são a raiz dos abusos dos direitos humanos em todos os lugares. Considerando as pessoas em categorias, não conseguimos reconhecê-las como indivíduos, como seres humanos; já não conseguimos mais nos colocar no lugar delas. Elas estão à nossa frente mas não as vemos.


Durante a Guerra Fria, a África foi palco das guerras de procuração entre os blocos ocidental e oriental, o que fez enriquecer os negociantes de armas das grandes potências. E o que o resto do mundo disse do povo africano que tanto suportou? Que a África era um fracasso. Uma arrogância indescritível!


“Lutar é minha vida!” — fiel a essa convicção, em 1962, Mandela transformou até mesmo o tribunal onde estava sendo julgado em um campo de batalha para articular corajosamente seus ideais e em eloquentes apelos pela justiça. Diante do juiz, ele sugeriu que o direito ao voto fosse estendido a todos os sul-africanos. Mandela declarou: “Não me considero nem legalmente nem moralmente obrigado a obedecer ordens feitas por um parlamento no qual eu não tenho representação”.

De dentro de sua cela, Mandela continuou a inspirar o povo da África do Sul. Embora ele não conseguisse se comunicar com as pessoas, sua própria existência já era uma fonte de esperança.

O mundo registrou seu desgosto pelo apartheid e seu apoio por aqueles que resistiam a esse sistema econômico por meio de sanções econômicas e boicotes culturais e esportivos. Sentindo essa pressão, o governo da África do Sul ofereceu libertar Mandela em várias ocasiões. Ele recusava consistentemente essas ofertas, o que comprometeria a integridade do movimento antiapartheid. Ele recusava considerar a sua própria liberdade antes que todo o país a tivesse alcançado. Aos seus olhos, toda a África do Sul era uma prisão.


Finalmente, o dia de sua libertação chegou. Naquele dia, 11 de fevereiro de 1990, Mandela discursou na Cidade do Cabo:

“Estou aqui diante de vocês não como um profeta, mas como um humilde servidor de vocês, o povo. O incansável e heroico sacrifício de vocês tornou possível eu estar aqui hoje. Portanto, deposito os anos restantes de minha vida em suas mãos.”

Mandela sonha com uma terra governada não por negros ou brancos, mas por uma “nação arco-íris”, na qual todas as pessoas desfrutem igual tratamento. Certa vez ele disse: “É um ideal pelo qual espero viver e alcançar. Mas, se necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”.


As primeiras eleições não raciais da África do Sul, abertas a todos os cidadãos, foram realizadas em abril de 1994. Enquanto Nelson Mandela caminhava até a urna eleitoral, as faces de todos aqueles que haviam morrido na jornada até aquele momento surgiram em sua mente. Homens, mulheres, crianças, eles haviam dado a vida para que ele e seus companheiros sul-africanos pudessem estar lá naquele dia.


Ninguém pode nos ensinar melhor esse profundo significado de liberdade do que esse homem que passou metade de sua vida adulta aprisionado. A essência da liberdade encontra-se numa convicção resoluta. Somente aqueles que vivem fiéis às suas convicções, cuja fé interior os possibilita se elevarem acima dos grilhões de qualquer situação, são realmente livres. Como disse o presidente Mandela: “Ser livre não é somente libertar-se das correntes, mas viver de uma forma que respeite e fortaleça a liberdade dos outros”.


Queime as lenhas

  O budismo ensina como converter imediatamente o maior sofrimento em grande alegria. O que garante isso é o princípio “desejos mundanos são...