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sexta-feira, 18 de março de 2022

A paz não está distante.

 

soka gakkai

“A paz não está distante. Deve edificar o mundo de confiança e de amizade no local em que você está agora. A paz do mundo existe como extensão deste círculo. Falar unilateralmente não constitui diálogo. De início, respeite o outro e dê-lhe ouvidos. Ouvir, falar e novamente ouvir. Essa interação franca e aberta faz romper os muros do coração, como o pensamento preconcebido fixo e o prejulgamento. A outra pessoa é um ser humano, nós também somos seres humanos. Ao sabermos então que não existe nenhuma discriminação, acontecerá o intercâmbio de coração a coração, e nascerá a confiança. (...) Violência ou diálogo. Nas diversas regiões do mundo, ainda perduram intensos conflitos, e a corrente de ódio e a agressão continuam a se manter. É exatamente por isso que jamais podemos abandonar o diálogo. É justamente a firme escolha do diálogo que se tornará a escolha pela paz, e impreterivelmente conduzirá à escolha pela vida, assim acredito. Construir um mundo de paz e sem guerra no qual uma pessoa não mata outra. Esse é o ardente desejo da Soka Gakkai. É a missão da SGI.” 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O diálogo simboliza o humanismo budista

 

daisaku ikeda

Nichiren Daishonin foi um firme defensor do diálogo, assim como escreveu no tratado Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra na frase: “Vamos analisar minuciosamente a questão” (CEND, v. I, p. 7). Ele ensinou a importância de se estar aberto ao diálogo com qualquer pessoa e promover a compreensão, a simpatia e a concordância por meio da razão e da lógica. A postura dele era oposta à imposição de sua vontade a outras pessoas com pressões externas como armas, poder e autoridade.

O diálogo simboliza o humanismo budista, e rejeitá-lo equivale a negar o próprio espírito de Daishonin.

A Soka Gakkai expandiu amplamente o jardim florido do kosen-rufu pelo acúmulo de atividades de base centradas no diálogo, tais como visitas familiares, reuniões de pequenos grupos e reuniões de palestra.

A ideologia do diálogo da Soka Gakkai está fundamentada na filosofia de respeito às pessoas e na confiança ao ser humano. É sustentada pelo princípio budista de igualdade entre as pessoas, o qual indica a presença da natureza de buda na vida de todos e a existência da nobre missão a ser cumprida.

Porém, Nikken e o clero da Nichiren Shoshu se opuseram a esse princípio, e adotaram o pensamento inerente ao tradicional sistema de paróquias do Japão em que os sacerdotes estão em posição superior aos adeptos leigos. E tentaram impor essa visão à Soka Gakkai, subordinando seus associados a eles.

Nichiren Daishonin se baseou no princípio filosófico de igualdade do Sutra do Lótus lutando contra todas as formas de discriminação, como as de diferenças sociais, conforme apontado por conceitos de “iluminação das mulheres” e “iluminação das pessoas dos dois veículos”.² É por isso que os intelectuais do mundo valorizam altamente o budismo pelos seus princípios de respeito à dignidade da vida e pela promoção da harmonia entre as pessoas e da paz da humanidade.

Daishonin declara, com clareza, a igualdade entre as pessoas que ultrapassa as diferenças de gênero, ou entre clérigos e leigos: “...aquele que ensina aos outros mesmo uma única frase do Sutra do Lótus é o emissário d’Aquele que Assim Chega, independentemente de essa pessoa ser sacerdote ou leigo, monja ou leiga” (CEND, v. I, p. 33).

O objetivo do Budismo de Nichiren Daishonin é a felicidade das pessoas. Se fechássemos os olhos à atitude do clero de distorcer esse ponto essencial do budismo, permitiríamos um desenfreado autoritarismo anacrônico pela tirania dos sacerdotes clericais. E isso promoveria uma injusta discriminação, criando tumulto e infelicidade.

De fato, poderia levar à destruição dos ensinamentos corretos do budismo, tal como consta nos escritos de Nichiren Daishonin: “Os inimigos do budismo não são as pessoas más. São os sacerdotes que se assemelham a arhat com ‘três percepções e seis poderes transcendentais’³ que destruirão a Lei correta” (WND, v. I, p.388).

A Soka Gakkai também estava profundamente preocupada com a consciência do clero em relação à cultura, cuja atitude dogmática e exclusivista não se limitava a rejeitar o Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven. A Daibyakurenge, revista mensal de estudos da Soka Gakkai, havia publicado uma foto de um dos itens da exposição A Confiança do Príncipe: Mantos do Reino – uma Mostra de 300 Anos de Vestimentas de Cerimônias Britânicas exibida no Museu de Arte Fuji de Tóquio. Era uma foto do manto e insígnia da Ordem da Jarreteira [a mais elevada honra que o soberano britânico pode conceder]. Quando um alto sacerdote da Nichiren Shoshu viu a foto, reclamou que continha uma imagem de uma cruz cristã, referindo-se ao símbolo bordado no manto.

Sem apreciar as tradições e culturas típicas de cada país, de cada região e de cada povo, não há a compreensão mútua dos seres humanos. O respeito à cultura é o próprio respeito ao ser humano.

As atividades da sociedade humana — como a cultura e as artes, os costumes e as tradições — são influenciadas em maior ou menor grau pela religião.

O calendário ocidental, por exemplo, estabelece o ano do nascimento de Jesus Cristo como o primeiro ano; a definição do domingo como dia de descanso deriva da designação cristã. E os vitrais também são frutos da cultura cristã, pois foram desenvolvidos para expressar a magnificência de suas igrejas. Muitas construções e estilos arquitetônicos da Europa Ocidental possuem profunda conexão com o cristianismo. Alguém que os rejeite devido à relação com o cristianismo ficaria impossibilitado de viver na sociedade.

O budismo ensina o princípio de “adaptação aos costumes locais”. Conhecido também como “adaptação à época e aos costumes locais”, é um princípio que exorta os praticantes a respeitar os costumes e as tradições dos respectivos países e regiões em cada época, desde que não contrariem os princípios fundamentais do budismo.

Em outras palavras, desde que não se viole os ensinamentos fundamentais do Budismo Nichiren — aceitando e abraçando o Gohonzon do Nam-myoho-renge-kyo (a essência do Sutra do Lótus), rea lizando a fé, a prática e o estudo, e vivendo pela missão do kosen-rufu —, deve-se manter uma atitude flexível em relação aos costumes e às culturas locais.

A prática da fé é a própria sociedade. Somente quando cada pessoa que abraça a Lei Mística manifesta o respeito à cultura, que é produto da sabedoria humana, e conquista a confiança da sociedade por meio de sua ativa participação, o kosen-rufu mundial se torna possível.

O poema Ode à Alegria composto por Schiller e inserido na parte cantada por coral da Nona Sinfonia de Beethoven menciona “os deuses” (götter). Entretanto, a expressão “deuses” não se refere, de forma alguma a louvar a determinada religião.

Em dezembro de 1987, Sensei havia assistido ao concerto comemorativo dos 30 anos de fundação da Divisão dos Universitários em que quinhentos membros apresentaram uma orquestra da Nona Sinfonia incluindo um coral do Ode à Alegria. A emoção daquele momento tinha sido inesquecível.

Então, na reunião de líderes comemorativa dos 60 anos de fundação da Soka Gakkai (em novembro de 1990), ele propôs que na comemoração dos 65 anos cantassem Ode à Alegria com 50 mil vozes e, na de 70 anos, com 100 mil vozes. E sugeriu ainda que passassem a cantar não só em japonês, mas também em alemão.

Música e arte grandiosas transcendem as barreiras de nação e etnia, e sua melodia espiritual ressoa unindo o coração das pessoas.

Ode à Alegria é cantada no mundo como ‘hino ao ser humano’ e ‘hino à liberdade’.

Em 1989, a Revolução do Veludo, na Tchecoslováquia, pôs fim ao regime comunista sem a tragédia do derramamento de sangue. E, em 14 de dezembro, foi realizado um concerto na capital tcheca, Praga, para comemorar. Nesse concerto, foi apresentada a Nona Sinfonia de Beethoven com um coral cantando Ode à Alegria.

Ao término do espetáculo, o auditório explodiu em aplausos. Quando o novo presidente da Tchecoslováquia, Václav Havel, subiu ao palco em meio aos incessantes aplausos, a plateia manifestou em coro: “Havel! Havel!”. A Nona Sinfonia expressou a alegria no coração das pessoas.

Nos dias 23 e 25 de dezembro, após a queda do Muro de Berlim, foram apresentados concertos comemorativos da unificação da Alemanha Oriental com a Alemanha Ocidental e foi executada a Nona Sinfonia.

E, ainda, tendo como núcleo a Orquestra Sinfônica da Rádio de Baviera, a apresentação foi em conjunto com diversos grupos, incluindo músicos da Alemanha Oriental e da Alemanha Ocidental, e dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da França e da União Soviética, os quatro países que haviam administrado Berlim após a Segunda Guerra Mundial, antes da construção do muro.

De fato, Nona Sinfonia e Ode à Alegria simbolizavam o triunfo da liberdade e da reconciliação.

Muitos intelectuais e estudiosos da sociedade se manifestaram seguidamente contra a objeção do clero da Nichiren Shoshu de que cantar Ode à Alegria em alemão constituía louvor a não budistas, ignorando completamente a universalidade e o valor cultural dessa grande obra.

O Dr. Haruo Kawabata, do Instituto de Tecnologia Shibaura, conhecido filósofo e estudioso japonês de Nietzsche, observou: “A arte é uma sublimação do espírito humano universal. Sujeitá-la ao dogmatismo religioso e condenar seus apreciadores como hereges é a manifestação de julgamento arbitrário similar à caça às bruxas de eras passadas”.⁴

E afirmou ainda que a expressão “deuses” utilizada por Schiller não estava louvando o Deus cristão monoteísta, mas se referindo aos deuses da Grécia antiga simbolizando os ideais e as mais elevadas qualidades inerentes ao ser humano. Segundo Kawabata, a única forma de articular novas ideias era por meio de expressões já existentes.⁵

O escritor Hidehiko Ushijima, professor da Faculdade Feminina Tokai (atual Universidade Tokai Gakuin), no Japão, que mantinha contato com membros da SGI-Estados Unidos, afirma:

Cultura e religião são inseparáveis e ao mesmo tempo distintas. Não são sinônimas. Já cultura e a arte estão profundamente enraizadas na sociedade, transcendendo os limites de qualquer religião e, em conjunto, absorvem, separam-se e se fundem com outras culturas ao longo da história. Assim, elas moldam a forma como as pessoas vivem. Como tal, condenar a sinfonia Coral da Nona Sinfonia de Beethoven (a qual considero um hino a toda a humanidade, independentemente das religiões) como herética e rejeitá-la equivale a rejeitar a cultura mundial e o modo de vida das pessoas.

É fácil se fechar e ser dogmático. No entanto, a Nichiren Shoshu precisa reconhecer que, ao fazer isso, os sacerdotes não apenas deixam de cumprir o testamento de Nichiren Daishonin de propagar seus ensinamentos para o mundo, mas obstruem esse caminho.¹

A religião que cai no dogmatismo e julga a arte e a cultura com base em sua própria justificativa deixa de existir em benefício do ser humano e passa a agir em prol de si mesma.


domingo, 20 de fevereiro de 2022

o caminho espontâneo e gradativo para a solução dos problemas

 

daisaku ikeda

O diálogo de pessoa a pessoa compartilhando a esperança pela paz e unindo mutuamente os corações é o caminho espontâneo e gradativo para a solução dos problemas. Um verdadeiro diálogo deve continuar até produzir resultados, o que exige perseverança e tenacidade.

Em contrapartida, a atitude radical da não aceitação de questionamentos é agressiva e denota fraqueza interior da pessoa. Portanto, nada mais é que uma declaração de derrota da natureza humana, que no final tende à dependência da violência e de outras formas de coerção para atingir os fins.

A união do coração das pessoas pelo diálogo é a força para criar uma rede pela paz.


sábado, 19 de fevereiro de 2022

o poder de mover o coração das pessoas

 

daisaku ikeda

A voz possui o poder de mover o coração das pessoas e de mudar a sociedade e o mundo. Um novo passo se inicia a partir da nossa fala.

Daisaku Ikeda

sábado, 8 de janeiro de 2022

A importância do diálogo

 

soka gakkai

A importância do diálogo

Nosso dia é cheio de tarefas, ainda assim devemos mostrar exemplos de um convívio harmonioso em nosso lar e com nossos filhos. Lemos na Nova Revolução Humana sobre a rotina de Ikeda sensei, mesmo com várias tarefas, e o que ele fazia para estar próximo aos seus filhos.


Mesmo percorrendo todo o país, ele jamais se esqueceu de enviar cartões-postais de cada localidade para seus filhos. Os textos eram simples, muitas vezes apenas informando onde estava e aonde iria no dia seguinte. Porém, jamais enviou um cartão endereçado a todos; sempre fez questão de remeter um postal para cada um de seus filhos.2


Atitudes simples põem em ação a revolução humana individual e familiar. Pequenos gestos continuamente farão surgir verdadeiros frutos em nosso lar, como nosso mestre nos direciona por meio do seu incentivo a seguir:


A questão principal é que tudo é enfim decidido pela fé dos pais. Em particular — e digo isso com base na experiência de centenas de milhares de pessoas — a fé da mãe é crucial. É isso o que significa “consistência do início ao fim”. “Início” significa a fé dos pais e “fim”, a fé dos filhos. Essencialmente, não há separação entre as duas.3


Vamos, juntos, cada vez mais, construir as bases de nossa família com alegria e radiância.



domingo, 21 de novembro de 2021

Dialogar é um excelente remédio.

 

soka gakkai

Dialogar é um excelente remédio. Qualquer mudança positiva no seio familiar passa necessariamente por uma revolução na arte de conviver. Cada vez mais é preciso saber ouvir e saber falar.

A educação das crianças, o relacionamento amoroso entre os adultos, a busca de soluções financeiras, a melhor maneira de educar, métodos para revitalizar o ambiente familiar — tudo isso acontece com mais efetividade quando há a revolução humana individual.

Não adianta apenas esperar que os outros mudem. A revitalização do lar começa com a primeira pessoa que se disponha a quebrar o egoísmo e criar um ambiente colaborativo, transbordante de confiança e temperado com o prazer da convivência. O budismo afirma que a chave dessa mudança é o diálogo.

Acredite no poder da linguagem

“Os seres humanos transmitem seus pensamentos por meio da linguagem. Nós não somos telepatas, não podemos nos expressar totalmente por meio de movimentos ou gestos” (A Família Criativa, p. 39).

Os seres humanos aprendem de várias maneiras. Pode ser por meio da leitura de jornais, revistas e livros, ou então, da televisão, rádio e internet; essas formas de comunicação muitas vezes têm mão única e não há espaço para perguntar nem opinar.

Outra forma de obter informação é o diálogo. Não é apenas uma troca de informações. É um processo multifacetado que eleva o nível de consciência dos envolvidos.

Supor que as pessoas do convívio sabem ou deveriam saber o que está se passando na nossa cabeça é mera ilusão. É preciso falar. É necessário conversar, dialogar.

O presidente Ikeda afirma: “A criatividade que se encontra em uma família aberta não pode ser nutrida em um lar cujos membros são cativos da TV. Gostaria de ver os membros de uma família abrindo-se cada vez mais para o diálogo” (Ibidem, p. 38).

Muitas pessoas colecionam centenas de amigos em redes sociais virtuais, mas são incapazes de dialogar com os familiares que moram no mesmo teto. Aos poucos, a falta da boa conversa gera distanciamento emocional e a família perde a capacidade de unir forças na hora das dificuldades.

Aproveite os momentos de convívio para dialogar. Durante o jantar ou nos fins de semana, crie tais momentos. Expresse sua opinião sobre tudo. Ouça com atenção as opiniões alheias. Quanto mais se treina esse tipo de atitude, mais revitalizada e feliz fica a família.

Aprecie o diálogo

“Aprecio conversar mais do que qualquer outra coisa, pois dialogar com uma pessoa me proporciona a oportunidade de conhecê-la melhor e fazer dela uma parte de mim mesmo.

Durante este ano e pelo resto de minha vida, incentivarei meus amigos e manterei nossos diálogos. E, à medida que o diálogo começa a desempenhar um papel mais ativo em nossa vida social, nosso mundo vai se tornando mais agradável e um local de maior compreensão” (A Família Criativa, p. 44)

As crianças — pequenos adultos

É uma equação simples: daqui a 20, 30 e 50 anos, quem estará liderando o mundo serão as crianças de hoje. É fundamental para elas que o lar seja um local saudável de educação construída por meio do diálogo.

O presidente Ikeda orienta: “Jamais menosprezem uma criança. Tratem as crianças como pequenos adultos, como bons amigos. Respeitem a personalidade da criança, e ao conversar com ela, se dirigir como a um verdadeiro amigo” (A Família Criativa, p. 56).

Essa é uma proposta ousada e exige mudar completamente a forma de lidar com os pequenos — de uma relação de superioridade adulta para o respeito absoluto e a confiança. Na criança não floresceu totalmente ainda a capacidade de se comunicar, mas já possui tudo o que é necessário para viver. É um adulto que apenas não avançou na idade.

Quando os mais velhos tratam as crianças dessa forma e se esforçam sinceramente para dialogar com elas com respeito, tudo começa a mudar. Ao descobrir quanto cada pessoa é preciosa, “fará evidenciar o potencial ilimitado inerente na garotinha, que pode estar tendo dificuldades com matemática, ou no garotinho a quem consideram um desordeiro” (Ibidem, p. 57). Numa família criativa, impera o diálogo e cada um se esforça para despertar o melhor em todos.

Educar é se devotar ao desenvolvimento de cada pessoa

A educação não pode sufocar os jovens nem se restringir a transmitir conhecimento. Educar é trazer à tona o potencial máximo de cada ser humano.

“Acredito que a maior parte da tarefa de ‘cultivar o humanismo’ deveria ser executada em casa, local em que ocorre o desenvolvimento mais significativo do indivíduo”, afirma o presidente Ikeda ao discorrer sobre a influência do lar na educação.

Quando o lar é saudável, as crianças crescem criativas, sábias e livres. Quando as relações familiares são embasadas no diálogo sincero, os jovens são nutridos com confiança, valores humanos e capacidade de tomar boas decisões. Ao contrário, a superproteção e a desarmonia familiar produzem muitas vezes indivíduos “com mente estreita, frios e covardes” (Ibidem, p. 59).

O lar é o local da verdadeira educação humana que deve começar pela coragem dos adultos em romper as tendências egoístas e tornar-se o sol do encorajamento, da gentileza e da luta contínua em busca da felicidade. Num lar criativo, dialogar é fonte de prazer.

Jamais perder a identidade

Família criativa é aquela na qual cada pessoa é cuidada e sua indivualidade, respeitada. O presidente Ikeda condena o abandono da identidade pessoal em nome da convivência familiar.

Em algumas famílias, por exemplo, a esposa descuida de si mesma, tentando forçosamente construir uma família harmoniosa à custa da própria individualidade.

O Mestre expõe que certas pessoas fazem observações cínicas que definem as mulheres como “empregadas permanentes, com direito a três refeições diárias e permissão para tirar um cochilo durante o dia” (A Família Criativa, p. 32).

Ele clama: “Jamais percam sua identidade”.

Cada pessoa precisa ter seus sonhos, desenvolver uma vida com identidade bem-definida estando disposta a batalhar pelo que gosta e deseja. Isso naturalmente vai desencadear uma batalha e uma tensão espiritual. A vitória nessa batalha enriquece o caráter: “Essa condição é o que origina a atratividade em um ser humano. O senso de propósito é o que possibilita às mulheres conservar o seu magnetismo” (Ibidem, p. 32).

Uma pessoa sem brilho, sem magnetismo, causa estragos. A aparente submissão cobra alto preço com o passar do tempo.

Em vez de resignação, é preciso emoção, luta e compaixão. Busque o autoaprimoramento em paralelo com o amor intenso pela família: essas duas ações não são contraditórias, precisam caminhar juntas — são, na verdade, a fonte da criatividade e do cultivo de uma lar saudável e no qual todos sentem vontade de sempre retornar.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

um caminho mais certo para a paz

 

soka gakkai

Com o passar dos anos me engajei em diálogos com líderes de vários campos do mundo inteiro. Encontrei- me com diversas pessoas e debati com elas assuntos de diferentes pensamentos filosóficos, culturais e práticas religiosas. Minha crença, fortalecida ainda mais por essa experiência, é a de que o fundamento para o diálogo que o século 21 necessita deve ser o humanismo: um humanismo que vê o bem como aquilo que nos une e aproxima, e o mal, como aquilo que nos divide e isola.

Conforme revejo meu próprio esforço para fortalecer o diálogo nessa direção, ganho nova compreensão da necessidade urgente de redirecionar as energias do dogmatismo e do fanatismo — causas de tantos conflitos extremos — para uma perspectiva mais humanística. Num mundo dilacerado pelo terrorismo e ataques retaliatórios, por conflitos oriundos de diferenças étnicas e religiosas, essa tentativa pode parecer para muitos uma busca sem esperança. Contudo, acredito que devemos continuar fiéis a esse objetivo.

Qualquer visão de mundo incorpora uma ortodoxia, um modo convencional de concepção do planeta. Precisamos, portanto, desenvolver melhor compreensão dos aspectos, tanto os positivos quanto os negativos, dessas ortodoxias ou “ismos” (do dogmatismo e do fanatismo, por exemplo).

Uma ortodoxia pode ser algo positivo e servir para guiar as ações para fins construtivos. Ao mesmo tempo, esses “ismos” podem limitar o pensamento e o julgamento livre das pessoas a um ponto de referência único e exclusivo. Quando essa tendência foge ao controle, “ismos” abstratos podem acabar escravizando a vida de seres reais. Em qualquer época, as ortodoxias podem se inclinar nessa direção.

O fanatismo surge quando esse elemento destruidor se expande além das proporções. Isto pode levar a uma situação em que a vida humana é grotescamente desvalorizada; e a morte, tanto a de si próprio como a de outros, é glorificada.

A verdadeira essência e a prática do humanismo são encontradas no diálogo sincero, de coração a coração. Tanto nas relações diplomáticas entre grandes potências como nas interações diversas entre cidadãos de diferentes nações, o diálogo genuíno possui a intensidade descrita pelo grande humanista e filósofo do século 20, Martin Buber (1878–1965), como um encontro “sobre uma ponte estreita” em que o menor descuido resulta em queda fatal. O diálogo é, de fato, um encontro de alto risco.

As ondas do diálogo se multiplicam e se propagam, e têm o potencial para gerar a mudança da maré que dará melhor rumo às forças do fanatismo e do dogmatismo.

De certo modo, o humanismo sustenta a humanidade, tanto no sentido concreto quanto no abstrato como critério fundamental, mas não procura estabelecer um conjunto de normas fixas de controle de julgamentos e ações. Ao contrário, conduz as ações livres e espontâneas do espírito humano no julgamento e na tomada de decisões.

Com base no que está exposto, gostaria de propor as seguintes diretrizes para a prática do humanismo: quando entendemos que tudo muda dentro de uma interdependência, logo reconhecemos a harmonia e a unicidade como expressões de nossa inter-relação e podemos, ao mesmo tempo, considerar a contradição e o conflito.

Portanto, a luta contra o mal, que resulta do esforço interior para superar nossas próprias contradições e conflitos, deve ser entendida como uma experiência difícil porém inevitável, que devemos superar, para criar uma relação ainda maior e mais profunda.

Na medida em que reconhecemos a realidade da vida como uma luta e compreendemos que por meio dela nossa humanidade é fortalecida, uma entrega corajosa ao conflito torna-se ainda mais crucial. Ao recusarmos a discriminação com base em estereótipos ou em restrições impostas, podemos reconhecer a unicidade subjacente das relações positiva e negativa, e nos engajar com força total no diálogo capaz até de transformar o conflito numa relação positiva.

Creio que esse tipo de humanismo pode nos capacitar a enfrentar o eterno desafio de perceber, manter e fortalecer a paz com o sincero diálogo — tornando-o um caminho mais certo para a paz.


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Tudo começa com o diálogo.

 

soka gakkai



Uma querida amiga, a falecida Dra. Wangari Maathai (1940–2011), para poder estudar no exterior, deixou a aldeia queniana em que nasceu, onde as pessoas tratavam as figueiras com verdadeira reverência: contribuíam para a preservação da ecologia global. Ao retornar à terra natal, uma cena chocante a esperava. Sua figueira querida desde a infância fora derrubada pelo novo proprietário da terra para dar espaço ao cultivo de chá. O que mudou não foi só a paisagem: o comportamento foi repetido em outros lugares, deslizamentos de terra tornaram-se mais frequentes, e as fontes de água potável, mais escassas.

Este é um triste exemplo de como algo precioso para uma pessoa pode ser apenas um obstáculo para outra. Os problemas decorrentes das diferenças de consciência não se limitam às relações entre os indivíduos, afetam também as relações entre grupos de distintas origens culturais ou étnicas.

A velocidade exacerbada dos processos de globalização, com os modernos meios de comunicação, pode ampliar a tendência para o estereótipo e o ódio. As pessoas começam a evitar a interação com aqueles que são diferentes, incluindo os de sua comunidade, passam a vê-los com preconceito e discriminação. Observa-se na sociedade em geral a redução de nossa capacidade de valorizar o outro como ele é e do jeito que tem de ser.

“Jardineiro. Mãe. Amante da natureza. Estudante. Irmão. Poeta”

No ano passado [2015], no Dia Mundial dos Refugiados, o Acnur lançou uma campanha de educação pública, apresentando histórias de vida de pessoas que se tornaram refugiadas e incentivando os telespectadores a repartir tais histórias com seus amigos e conhecidos. Cada uma delas é apresentada pelo personagem real, um atributo reconhecido com facilidade e que nada tem a ver com a nacionalidade, e relata a sua história, o que sente sobre a sua condição atual. Deparar-se com a experiência e a história de vida de uma pessoa, em condições reais e conhecidas, permite que se veja além do rótulo, sem rosto, de “refugiado”.

Em setembro de 1974, em meio às acentuadas tensões da Guerra Fria, ignorei críticas e oposições e visitei a União Soviética pela primeira vez. A convicção que me motivou foi que não precisamos temer a União Soviética tanto quanto precisamos temer nossa ignorância com respeito à União Soviética.

O que ergue barreiras entre nós é a atitude de permanecer ignorante em relação aos outros. Por isso o diálogo é decisivo. Tudo começa com o diálogo.


sexta-feira, 20 de agosto de 2021

“Um amigo na sala de orquídeas”

 

daisaku ikeda

“Então, o anfitrião disse: Tenho meditado, sozinho, sobre o assunto com indignação. Agora que o senhor chegou, podemos lamentar juntos. Vamos analisar minuciosamente a questão.” (CEND, v. I, p. 7)


O tratado de Nichiren Daishonin Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra, redigido em forma de diálogo entre um anfitrião e seu hóspede, inicia-se com o anfitrião ouvindo sinceramente as angustiantes preo­cupações do hóspede.


O hóspede lamenta o estado deplorável da sociedade causado por fome, epidemias e outras calamidades, e expressa o ardente desejo de acabar com aquela miséria. Com as palavras “Tenho meditado, sozinho, sobre o assunto com indignação” (CEND, v. I, p. 7), o anfitrião demonstra que compartilha da preocupação do hóspede.


Essa preocupação comum representa a abertura para um diálogo sobre como libertar todas as pessoas do sofrimento, transformar a sociedade e criar um futuro mais radiante para a humanidade.


Embora em âmbito diferente, meu diálogo com o historiador britânico Arnold J. Toynbee (1889–1975) também teve como ponto de partida nossas preocupações comuns acerca de como a humanidade poderia trabalhar unida para construir um mundo pacífico. Ele desenvolvera interesse pelo budismo Mahayana e também sentia profunda simpatia pelo nosso movimento budista popular. Isso o levou a me escrever e sugerir que realizássemos um diálogo.


O Dr. Toynbee, que era quase 40 anos mais velho que eu, recebeu-me com o carinho de um pai, e pudemos manter uma interlocução sincera sobre vários problemas que a sociedade contemporânea enfrentava.


Este ano assinala o 45o aniversário do início do nosso diálogo (em maio de 1972), que posteriormente foi publicado em inglês com o título Choose Life [Escolha a Vida]. Até agora, o livro foi traduzido em 28 idiomas e amplamente lido no mundo todo — uma evolução que tenho certeza que deixaria o Dr. Toynbee muito contente.


“Um amigo na sala de orquídeas”


Voltando ao tratado de Daishonin, depois de expressar sua preocupação comum, o anfitrião e o hóspede continuam envolvidos numa discussão acalorada com base em suas respectivas convicções.


Uma por uma, as dúvidas e objeções expostas pelo hóspede vão sendo esclarecidas pelo anfitrião, estabelecendo-se entre eles uma relação de compreensão, empatia e confiança.


Esse fato é descrito pela frase “O senhor uniu-se a um amigo na sala de orquídeas” (CEND, v. I, p. 23). Assim como o aroma das orquídeas perfuma a sala onde elas são colocadas, a fragrância da compaixão do anfitrião envolve o coração do hóspede.


São os admiráveis traços e características pessoais que abrem o coração dos outros e mudam o pensamento deles. Tais qualidades não decorrem de status ou posição social; antes, são uma expressão de como a pessoa vive.


O exemplo de pessoas que, sejam quais forem as circunstâncias ou o ambiente, têm uma existência vigorosa, positiva e confiante, dedicada à felicidade do próximo e ao bem-estar da sociedade, não pode senão comover e inspirar aqueles à sua volta.


Ao abraçarmos a lei mística e devotarmos a vida ao cumprimento do grande juramento e à concretização do ideal de Daishonin de “estabelecer o ensinamento correto para a pacificação da terra”, nossa vida, mesmo sem termos consciência disso, adquire uma fragrância tão nobre e refinada como a das orquídeas. Nossos diálogos começam com nossa oração pela felicidade dos outros. Quando baseamos a vida na lei mística, todos os nossos esforços para ir ao encontro das pessoas, conversar com elas e possibilitar que formem um elo com o budismo as ajudarão a revelar seu próprio potencial interior.


Juramento conjunto é o propósito do diálogo


Na conclusão do seu tratado, o hóspede expressa sua determinação: “Mas não basta que somente eu aceite e tenha fé em suas palavras, devemos também advertir outras pessoas sobre os erros que elas cometem” (CEND, v. I, p. 26). O texto, portanto, termina com o hóspede e o anfitrião firmando um juramento conjunto. Isso demonstra claramente o verdadeiro propósito do diálogo que estamos travando. Acima de tudo, ampliar o número de pessoas conscientes da veracidade da lei mística e compartilhar o juramento comum de tornar o mundo um lugar melhor é o ímpeto para a construção de uma sociedade pacífica. O diálogo direcionado para o “estabelecimento do ensinamento correto para a pacificação da terra”, que enobrece preocupações compartilhadas transformando-as num juramento conjunto, com certeza se converterá numa pedra fundamental para a paz mundial.


O diálogo promovido pelos membros da Soka Gakkai é alimentado pela crença na natureza de buda de todas as pessoas. Despertar a natureza de buda nos outros é a chave para consolidarmos nossa própria felicidade e a dos demais também. Isso porque a convicção comum em nosso próprio potencial e no das outras pessoas, para atingir o estado de buda, tem o poder de transcender todas as diferenças e se tornar a base da felicidade e da paz. É exatamente esse tipo de diálogo de que o mundo hoje tanto necessita.



quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Quanto mais alta a torre, mais fortes são os ventos que a atingem

 

soka gakkai

Quanto mais alta a torre, mais fortes são os ventos que a atingem. Da mesma forma, quanto mais grandiosa a pessoa, mais fortes os ventos da resistência que ela enfrenta.


Enquanto eu aguardava numa sala na Casa Oficial de Hóspedes, em Tóquio, um homem entrou sem ser anunciado. Parecia exausto. A aparência robusta da qual me recordava de encontros anteriores havia desaparecido completamente. Ele estava acompanhado apenas de dois auxiliares e sem o próprio intérprete. Difícil de acreditar, mas se tratava do ex-presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev.


Gorbachev estava no Japão para uma série de reuniões de cúpula com o primeiro-ministro japonês. Aquela era a primeira visita de um chefe de Estado soviético e a realização de um desejo que ele havia compartilhado comigo no ano anterior no Kremlin — o de visitar o Japão na primavera seguinte. Eu estava extremamente feliz por aquela visita ter sido possível. Todo o arquipélago japonês parecia estar aguardando com ansiedade a sua visita.


Ele próprio se mostrava exausto com a programação extremamente apertada das reuniões, as quais pareciam continuar interminavelmente sem qualquer progresso. As negociações não eram o único desafio que ele enfrentava. Seu experimento histórico da perestroika estava sendo criticado dentro da União Soviética e em outros lugares. Mesmo sua esposa, Raisa, estava extenuada pelo esforço e pela fadiga.


Fui até a Casa Oficial de Hóspedes em 18 de abril de 1991, após ter recebido sua mensagem com o desejo de me encontrar. Foi doloroso vê-lo tão cansado.


“Sei quanto tem enfrentado problemas”, disse-lhe, “mas quanto mais desesperadora a situação, mais próxima está sua solução. Eu o estimo, Sr. Presidente, pois sei bem que suas ações estão baseadas nos melhores interesses de toda a humanidade”.


Ao final do nosso encontro ele já se mostrava mais animado. Agradeceu-me, cumprimentou minha intérprete e partiu para mais uma série de reuniões. Comentei com minha intérprete que ele não havia estendido a mão em cumprimento. Ela riu e disse: “Foi porque, durante toda a reunião, o senhor conversou com ele segurando seus braços, praticamente sacudindo-o!”.


Quatro meses mais tarde, em agosto de 1991, Gorbachev foi condenado à prisão domiciliar durante uma tentativa de golpe de Estado feita por comunistas. Ele não aparecia publicamente, o que deu vazão a rumores de que havia sido assassinado. Até hoje não me esqueço da sensação de alívio ao ver pela televisão a cobertura do seu retorno a salvo.


Certa vez, ele me disse estar ciente da história sangrenta das lutas pelo poder na Rússia. Como consequência, tanto ele quanto sua família estavam cientes do perigo que corriam.


Meu alívio foi breve: no final daquele ano [1991] a União Soviética entrou em colapso e fiquei mais preocupado com ele do que antes. Gorbachev renunciou. As correntes da história avançaram. Após nosso primeiro encontro, tive um estranho pressentimento de que aquele seria seu destino, uma vez que ele era alguém confiado pelas pessoas. Sabia também que aquele era seu maior idealismo — sua fé na humanidade — que o motivava a se lançar ao movimento pela perestroika em primeiro lugar.


O escritor Chingiz Aitmatov falou certa ocasião a respeito de uma conversa que tivera com Gorbachev, na qual ele havia citado uma fábula sobre dois caminhos:


“Um profeta”, disse Aitmatov, “estava certa vez conversando com um rei. ‘Sua Majestade’, disse ele, o senhor está diante de dois caminhos. Um deles é a consolidação do trono por meio de leis opressivas, na forma tradicional. Se escolher esse caminho, sua permanência no poder estará garantida. O outro caminho é o da completa liberdade e conduzirá as pessoas à felicidade. Se escolher esse caminho, entretanto, enfrentará uma vida de intensas dificuldades, pois as pessoas usarão sua nova liberdade para criticá-lo. Abusos e traições encherão a terra e o senhor será alvo de ridicularização. Depende do senhor escolher um entre esses dois caminhos”.


Após ouvir atentamente as palavras de Aitmatov, Gorbachev respondeu calmamente: “Eu já fiz a minha escolha: o da democracia e da liberdade. Mesmo que ninguém entenda o que estou tentando fazer, é o único caminho a seguir”.


Não podemos esquecer o poder virtualmente ilimitado que Gorbachev desfrutava ao ser indicado para secretário-geral do Partido Comunista. Esse poder poderia ter-lhe garantido uma posição inabalável. Entretanto, ele preferiu renunciar a isso quando iniciou o processo de mudança e de reforma, o qual sabia que poderia minar sua posição pessoal. Nesse sentido, o processo da reforma da União Soviética teve seu início com a perestroika de uma única pessoa: o mais importante líder da nação. Quanto o mundo deve à corajosa decisão desse homem!


Logo após sua renúncia como presidente, expressei-lhe minha certeza de que, para ele, como indivíduo, era apenas o começo, e que seu trabalho mais importante estava por vir.


Gorbachev e eu nos encontramos novamente em 1992 e em 1993, ambas as ocasiões em abril, quando no Japão o clima é ameno e as cerejeiras estão cobertas de flores. Lembro-me dele em nosso primeiro encontro dizendo que tinha uma afinidade especial pela primavera, a estação da renovação.


Para mim, era um prazer vê-lo livre do fardo e de toda a ansiedade da posição política que ocupava. Mesmo assim muitos dos seus opositores, que ansiavam encontrá-lo quando era presidente, saudavam o cidadão Gorbachev com desdém. Essas pessoas eram incapazes de apreciar o espírito que dera vida à perestroika, a preocupação por toda a humanidade que motivara Gorbachev. Em 1993, Mikhail e Raisa Gorbachev visitaram a Universidade Soka. Gorbachev falou durante aproximadamente uma hora diante da assembleia de estudantes e professores. “No Ocidente”, disse ele, “é comum a ideia de que a perestroika tratava-se de uma declaração de derrota dos soviéticos na Guerra Fria. Na verdade, foi justamente o contrário. O objetivo da perestroika”, explicou ele, “era produzir uma renascença espiritual nas pessoas, para rejeitar a falsidade, o cinismo e as posturas dúbias. Assim, a perestroika representa a vitória espiritual e moral dos cidadãos da União Soviética”.


Eu estava muito feliz por vê-lo falar com saúde e energia renovada. Fiquei também impressionado quando clamou, no mesmo discurso, por uma nova civilização focada nos seres humanos e nos interesses humanísticos, e não simplesmente voltada a avanços tecnológicos. Lembrei de vinte anos antes, em 1974, quando visitei pela primeira vez a União Soviética. O primeiro-ministro Aleksey Kosygin perguntou no que eu acreditava. Imediatamente respondi: “Na paz e na cultura, mas acima de tudo, na humanidade”. No início dos anos 1970, simplesmente visitar a União Soviética ou conhecer o seu povo era motivo de crítica. Entretanto, eu tinha certeza de que uma relação aberta e franca entre a União Soviética e outros países — fosse o Japão, a China ou os Estados Unidos — poderia ser conquistada por meio de diálogos baseados em princípios humanísticos, priorizando a felicidade das pessoas. Embora houvesse riscos, era necessário criar um caminho. Acredito que a paz só possa ser alcançada por meio de um esforço incessante. E é por isso que clamo constantemente ser o diálogo o caminho mais seguro para a paz.



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