quinta-feira, 12 de agosto de 2021

“segurança humana”

 

soka gakkai

(...) Uma das contribuições mais importantes do Dr. Selye1 foi lançar luz sobre os aspectos positivos do estresse. Ele argumentava que o estresse em si não é uma doença nem necessariamente conduz à doença. O estresse pode nos impulsionar a exercitarmos a criatividade e extrair a vitalidade ou a energia que precisamos para nos defender das ameaças externas.

Certa vez, o Dr. Selye descreveu o estresse como “o tempero da vida”. É preciso realmente estar livre das preocupações seculares para poder considerar o estresse sob esse ângulo. É saudável, e até mesmo necessário, esquecer as pressões do trabalho e sair para um drinque com amigos, cantar em um karaokê ou relaxar com outras formas de lazer. No entanto, o fundamental é reunirmos nossas forças internas o suficiente para transformar o estresse num “tempero” e aprender a desfrutá-lo de maneira criativa.

O mundo dos seres humanos certamente não é uma utopia de paz e justiça universais. Pelo contrário, o que impera são injustiças, discórdias e conflitos. Precisamos aprender a conviver com essa dolorosa realidade.

Tive vários diálogos com o renomado biólogo francês René Dubos e ele me disse que, embora seja prazeroso imaginar um mundo livre de preocupações, estresse e tensão, tal mundo não é nada mais do que o sonho impossível de um indolente. Acrescentou que os seres humanos crescem quando enfrentam adversidades. É assim que o nosso espírito age — este é o destino da humanidade. O que o senhor acabou de dizer me fez lembrar das palavras do Dr. Dubos.

A maneira mais eficaz para lidarmos com o estresse é empreender constantes esforços no sentido de cultivar nossa mente e forjar nossa personalidade mesmo diante do perigo.

 Baseado em sua própria experiência de luta contra o câncer, o Dr. Selye recomenda o seguinte para criar um estilo de vida construtivo: (1) Como o ressentimento e a ira diminuem nossa resistência em favor do estresse, transforme esses sentimentos em respeito e compreensão; (2) estabeleça objetivos para a sua própria vida; e (3) viva em prol das pessoas, pois, fazendo assim, você beneficiará a si mesmo.

O modo de vida que o Dr. Selye propõe é exatamente o que é chamado de caminho do bodhisattva no budismo. Os bodhisattvas vivem pela paz da humanidade e por uma sociedade justa e correta. Ao agirem desse modo, eles transformam suas indignações em benevolência e controlam a avareza com sabedoria. Desfrutam a vida fazendo do estresse o tempero de sua vitalidade. Uma passagem do Sutra de lótus diz: “Árvores adornadas com pedras preciosas e abundantes em flores e frutos no local onde os seres vivos desfrutam tranquilidade”.2

Qualidades tais como vitalidade, autocontrole, criatividade, sabedoria e perseverança são essenciais para a concretização da justiça e da paz.

E insisto em dizer que é impossível evitar totalmente as guerras e eliminar de vez as injustiças. Mas podemos mudar o status quo; na verdade, esse é o nosso dever. No mínimo, devemos melhorar a realidade deste mundo.

 Concordo plenamente.

 A Soka Gakkai Internacional (SGI) vem trabalhando há anos em colaboração com as principais agências das Nações Unidas, inclusive a Unesco. Como presidente da SGI, o senhor abraça o sentimento expresso na introdução da Carta da Unesco: “Como as guerras começam na mente do homem, é na mente do homem que as defesas da paz devem ser construídas”. Construir paz e justiça dia após dia requer a mobilização de energias de autodefesa, criatividade e uma inventividade clara e apaixonada. Com frequência, o efeito dos movimentos espirituais que se proliferam atualmente, seja essa ou não a intenção, é desmobilizar e eliminar responsabilidades. Sem dúvida, conforme já mencionei, injustiças e guerras são inevitáveis. Elas existem e gritam para nós dos nossos aparelhos de televisão. Porém, temos a capacidade de mudar esses fatos. É nossa responsabilidade fazer isso ou, pelo menos, nos dedicar a esse propósito.

É verdade. O meio para se alcançar uma paz duradoura é tornar nossa mente uma inabalável fortaleza de paz mesmo sob as piores circunstâncias. Tenho a convicção de que esse é o caminho para se construir a “segurança humana” defendida pelas Nações Unidas.


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